Seja um gamer, salve o mundo.
Minha tradução do artigo "Be a gamer, save the world" da Jane McGonigal para o The Wall Street Journal. Quis postar esse texto aqui no blog, pois realmente acredito nos jogos como uma ferramenta com grande potencial de engajamento e de criação de valores. Os negritos e ênfases são por minha conta também. =)
Games fazem os jogadores se sentirem como heróis. Por que não lhes dar problemas reais para resolver?
Costumamos pensar em jogos imersivos, como FarmVille, Guitar Hero e World of Warcraft, como uma forma de "escapismo", um tipo passivo de fuga da realidade. Muitos críticos consideram tais jogos como perda de tempo, uma maneira de entorpecer o cérebro, e até como influências negativas e corrompedoras. Mas a verdade sobre os jogos é basicamente o contrário disso. Na sociedade atual, eles preenchem consistentemente necessidades humanas genuínas, que o mundo real falha em satisfazer. Mais do que isso, eles podem revelar-se como um recurso fundamental para a resolução de alguns dos problemas mais urgentes do nosso "mundo real".
Milhões de pessoas pelo mundo devotam partes cada vez maiores de seu tempo a essa "realidade alternativa". Coletivamente, gastamos 3 bilhões de horas semanais jogando. Nos Estados Unidos, onde existem 183 milhões de jogadores ativos, videogames lucraram cerca de 15,5 bilhões de doláres no último ano. Apesar de um gamer típico jogar apenas uma ou duas horas por dia, existem mais de 5 milhões de "extreme gamers" no EUA, que jogam em média 45 horas por semana. Para se ter uma noção, o número de horas de jogo acumuladas ao redor do mundo, somente no jogo "World of Warcraft", somam 5,93 milhões de anos.
Esse jogadores não estão rejeitando a realidade por completo. Eles têm carreiras, objetivos, trabalhos escolares, famílias, e vivem vidas reais, que são importantes para eles. No entanto, eles dedicam grande parte de seu tempo livre aos mundos virtuais do jogos, e frequentemente sentem que está faltando algo no "mundo real".
Os jogadores querem saber onde no "mundo real" poderão encontrar a sensação que os jogos provocam, de estarem vivos, focados e engajados em cada instante. A vida cotidiana não apresenta o mesmo tipo de prazeres cuidadosamente planejados, desafios excitantes e poderosas conexões sociais que podem ser encontrados nos ambientes virtuais.
A realidade falha em nos motivar dessa maneira tão eficiente. Ela não é projetada para maximizar nosso potencial ou nos fazer feliz.
Aqueles que continuam tratando os jogos meramente como uma forma escapista de entretenimento irão se encontrar em profunda desvantagem nos próximo anos, à medida que cada vez mais jogadores começarão a usar seus "poderes" para produzir algo positivo. Minhas pesquisas na última década na Universidade da Califórnia, Berkeley, e no Instituto para o Futuro, mostraram que os jogos nos proporcionam os quatro ingredientes que contribuem para uma vida significativa e feliz: satisfação no trabalho, esperança real de sucesso, fortes conexões sociais e a chance de tornar-se parte de algo maior que nós mesmos.
Esses ingredientes nem sempre se mostram presentes em nossas vidas, mas eles sempre estão presentes em um bom jogo. Esses benefícios são o que os psicólogos chamam de recompensas intrínsecas - nós não jogamos jogos para ganhar dinheiro, melhorar nosso status social ou adquirir sinais externos de sucesso. Essas recompensas intrínsecas, como mostram estudos na Universidade da Pensilvânia, Havard e U.C. Berkeley, fornecem os alicerces para experiências humanas ideais.
Em um bom jogo nos sentimos produtivos. Temos objetivos claros e um senso de propósito heróico. Mais importante que isso, conseguir ver e sentir constantemente o impacto dos nossos esforços no mundo virtual que nos cerca. Como resultado, temos um senso mais forte de nossa atuação, da consequência de nossas ações, e nos tornamos mais propensos a estabelecer metas mais ambiciosas em nossa vida real. Um estudo recente mostrou, por exemplo, que jogadores de Guitar Hero têm uma probabilidade maior de se dedicarem a realmente aprender a tocar guitarra.
Uma outra sensação que experimentamos quando jogamos é o otimismo urgente. Acreditamos, de todo o coração, que estamos a altura de qualquer desafio, além de nos tornamos extremamente resilientes diante de nossos fracassos. Pesquisas mostram que os gamers gastam em média 80% do seu tempo de jogo falhando, e, ao invés de desistir, persistem no desafio e usam o feedback do jogo para melhorar. (E para ilustrar, posto aqui a crônica de um amigo gamer que aborda bem a questão: A poderosa lição do ninja João)
Com algum esforço, podemos aprender a aplicar essa resistência e motivação frente a fracassos nos desafios reais que enfrentamos em nosso cotiano.
Jogos facilitam a criação de laços mais fortes com nossos amigos e família. Estudos mostram que gostamos e confiamos mais em alguém após jogar um jogo com essa pessoa - mesmo que ela nos vença. E que também estamos mais propensos a ajudar alguém na vida real após ajudar essa pessoa num jogo online. Não é a toa que 40% de todo o tempo dos usuários do Facebook são gastos com jogos sociais. Eles são uma maneira rápida e confiável de fortalecer nossas conexões com pessoas com as quais nos importamos.
Os jogos de hoje em dia são criados em uma escala épica, com histórias convincentes, mitologias vastas e ambientes adaptados a multi-jogadores que criam um sentimento de fascínio, medo e admiração. Pesquisadores da emoção positiva (positive emotion) descobriram que quando experimentamos esses sentimentos nos tornamos mais propensos a servir a uma causa maior e a colaborar desinteressadamente com os outros.
Com tanta produtividade e o sentimento de otimismo urgente, além dos fortes laços sociais e a grande cooperação entre os jogadores, não é de se admirar que tantos players sintam que os jogos despertam a sua melhor versão como pessoa. Essa é uma das razões pelas quais acredito que podemos nos beneficiar um pouco mais dos jogos. Podemos aproveitar o poder do desenvolvimento de jogos para resolver os problemas do mundo real. Devemos capacitar os jogadores a utilizar seus pontos fortes do mundo virtual para realizar proezas reais. Na verdade, quando comunidades de jogos foram desafiadas com problemas do mundo real, elas provaram ser capazes de produzir resultados tangíveis e passíveis de potencialmente mudar o mundo.
Em 2010, mais de 50 mil jogadores foram listados como co-autores de um trabalho de pesquisa na prestigiada revista científica Nature. Os jogadores, sem nenhuma formação prévia em bioquímica, trabalharam em um ambiente de jogo 3D chamado Foldit, agrupando proteínas virtuais em novas formas, que poderiam ajudar a curar o câncer ou prevenir a doença de Alzheimer. O jogo foi desenvolvido por cientistas da Universidade de Washington que acreditavam que os jogadores poderiam superar os supercomputadores nessa tarefa criativa. E eles ven ceram os supercomputadores em mais da metade dos desafios do jogo.
Mais recentemente, mais de 19 mil jogadores de Evoke, um jogo online que criei para o Instituto do Banco Mundial, realizaram missões no mundo real para melhorar a segurança alimentar, aumentar o acesso à energia limpa e acabar com a pobreza em mais de 130 países. O jogo focava no desenvolvimento das habilidades dos jogadores com o objetivo de projetar e lançar seus próprios empreendimentos sociais.
Após 10 semanas, eles tinham fundado mais de 50 novas empresas. Empresas reais, que estão funcionando atualmente da África do Sul e Índia a Buffalo, NY. O meu empreendimento favorito foi o Libraries Across Africa, um sistema de franquias que possibilita a empresários locais criar bibliotecas comunitárias livres.
Estes exemplos são apenas o começo do que é possível, se nos aproveitarmos do poder dos jogos para nos tornarmos melhores e mudar o mundo. Os que entendem esse poder serão os que inventarão nosso futuro. Podemos criar jogos gratificantes e transformadores, para nós e nossas famílias; para nossas escolas, empresas e bairros; para toda uma indústria ou um para movimento inteiramente novo.
Nós podemos jogar quaisquer jogos que quisermos. Nós podemos criar qualquer futuro que possamos imaginar.
Que comecem os jogos.
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