8 Nov 2010

O telefone móvel e o Chamado do Herói. Ou: por que as pessoas saem comigo mas ficam toda hora olhando pro celular?

Vamos devagar.

O teórico norte-americano Joseph Campbell, ao fazer uma análise cultural cruzada das religiões mais populares no mundo, chegou a uma estrutura conceitual que serviria como base para todos as grandes histórias, o Monomito. Publicado no livro O Herói de Mil Faces (1949), o Monomito é basicamente um guia, com todas as etapas típicas de uma narrativa mitológica. Esse modelo, por sua grande força e fácil reconhecimento pelo público (afinal todas as histórias épicas ou contos de fada que ouvimos desde cedo seguem essa sequência), guia também, 99% das vezes, os roteiros de Hollywood.

 

 

Os 12 principais estágios são:

1. Mundo Comum - O mundo normal do herói antes da história começar.

2. O Chamado da Aventura - Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura.

3. Reticência do Herói ou Recusa do Chamado - O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo.

4. Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural - O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura.

5. Cruzamento do Primeiro Portal - O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.

6. Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia - O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial.

7. Aproximação ou Preparação - O herói tem êxitos durante as provações.

8. Provação difícil ou traumática - A maior crise da aventura, de vida ou morte.

9. Recompensa - O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir).

10. O Caminho de Volta - O herói deve voltar para o mundo comum.

11. Ressurreição do Herói - Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido.

12. Regresso com o Elixir - O herói volta para casa com o "elixir", e o usa para ajudar todos no mundo comum.


Então, vamos focalizar nos dois primeiros estágios, "O Mundo Comum" e "O Chamado da Aventura". O primeiro é fácil, é o mundo em que vivemos, é o recurso principal para que possamos nos identificar com o herói da história. Ele, como nós, vive uma rotina, um mundo enfadonho onde se sente levemente desconfortável. A grande diferença é que em uma história de ficção o personagem recebe um convite, "O Chamado do Herói", que o retira de sua rotina e o leva para uma aventura mágica que vai dar um novo significado a sua vida, pelo menos durante aquele momento.

 

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Up - Altas Aventuras


Como diriam os personagens principais de Alta Fidelidade e 500 dias com ela (filmes legais que têm protagonistas extremamente chatos), somos levados a acreditar, por causa de músicas, filmes e toda a bagagem de cultura pop que consumimos ao longa vida, que algo muito legal irá acontecer, alguma grande aventura, algum grande amor etc. No entanto, podemos viver sem nunca receber "O Chamado da Aventura", ou até ter expectativas tão altas que não conseguimos ver as aventuras nas pequenas coisas da vida.

 

"Você passa cada dia esperando que o próximo seja
diferente. E não é. É como o tempo. Ele será o mesmo amanhã. Até que a
tempestade chegue e, então, de fato, isso será talvez a maior empolgação
da sua
vida – as tempestades ..."
-Adamus

 

E onde entra o telefone celular?

Opa, calma.

 

Pierre Lévy, no livro O que é o virtual?, dá o exemplo de um palito de fósforo como a virtualização do fogo. Ou seja, o fósforo contém o fogo em potencial. Lévy não opõe o virtual ao real, e sim ao atual. O fogo seria o atual e o fósforo seria o virtual, pois contém a possibilidade do fogo. Seguindo o mesmo raciocínio, o telefone celular é a virtualização de seus contatos, já que mantém a presença deles em um estado iminente. Portanto, se você for receber "O Chamado da Aventura", não vai ser por um Bat-Sinal no céu, vai ser pelo celular, e você precisa checar, certificando-se de que ele está ligado ou de que você não deixou passar nenhum SMS.

Por que as pessoas ficam olhando o celular delas o tempo todo, mesmo em eventos sociais? Porque cada vez mais elas têm, na palma da mão, acesso a todo o mundo. Logo a possibilidade de estar acontecendo algo interessante naquele momento é muito grande, é quase uma certeza. Alguém pode estar tentando falar com você, para te fazer um convite que poderá ser o seu "Chamado da Aventura".

Logo, você não está competindo com um aparelho pela atenção de uma pessoa. Você está competindo com a esperança e a imaginação de tudo de mais interessante que possa estar acontecendo naquele momento, mesmo que isso seja uma ilusão.

 

27 May 2010

Futebol e a Inteligência Coletiva

Eu já gostei muito de assistir futebol, mas realmente cansei. Adoro jogar, e gosto de ver os jogos do Brasil, aliás, só não falo que meu time é Brasil porque isso é coisa de tia.

Lendo "O que é o virtual?", do Pierre Levy, me deparei com esse trecho, que deixou as coisas ainda mais claras para mim:

“Michael Serres ensinou-nos a ler nos estádios, certo teoremas de antropologia fundamental. Ouça-mos, para começar, o som das bancadas. Os apoiantes da mesma equipe gritam, quase todos ao mesmo tempo, as mesmas coisas. Os atos dos indivíduos distinguem-se mal, não se entrelaçam para fazer história ou ficar na memória, não vão por nenhuma bifurcação irreversível. O indivíduo é diluído no conjunto dos apoiantes, no barulho da multidão. Ora a inteligência desta massa (capacidade de aprendizagem, de imaginação, de raciocínio) é notoriamente mais fraca, quer se manifeste no estádio, quer à saída.

Vejamos agora o que se passa no campo. Cada jogador efetua ações nitidamente distintas das dos outros. Todavia, todas as ações visam a coordenação, tentam se responder, querem fazer sentido umas em relação às outras. Os atos dos jogadores, contrariamente aos dos torcedores, intervêm numa histórica coletiva, orientam, cada um diferentemente, o curso de uma partida ainda não decidida. As equipes empregam estratégias, improvisam, arriscam. Cada um dos jogadores deve estar atento não apenas ao que fazem seus adversários mais igualmente ao que se trama em seu próprio campo, para que os movimentos efetuados por seus companheiros não tenham sido tentados em vão. O jogo se "constrói"."

Apóio o futebol e não sou contra os torcedores, eu acredito que todo mundo precisa de uma válvula de escape, só acho que às vezes as pessoas exageram.

Marcos Malagris

Profissional de Marketing Digital, graduado em Publicidade e Propaganda pela UFRJ e cursando Pós-Gradução em Marketing e Design Digital pela ESPM.
Acredito na Internet como um ferramenta incrível de potencialização da Inteligência Coletiva e da Cultura Colaborativa.
                                     

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