13 Jul 2011

Meu filho, você não merece nada - A velha história do: No meu tempo, ...

Tendo a ignorar toda argumentação que vem depois da expressão: "No meu tempo, ..."

Eu queria que a Superinteressante fizesse alguma matéria explicando porque as pessoas têm a necessidade de dizer que antigamente as coisas eram melhores e de desdenhar a geração atual, dizendo que não é educada como antigamente, que não luta pelas coisas, que quer tudo na mão e aquele velho blá-blá-blá que eu futuramente vou ter que dizer pro meu filho também.

Me pergunto se no meu aniversário de 40 anos eu vou receber uma carta do governo dizendo que a partir de agora eu vou ter que começar a proferir esse discurso.

 

No_meu_tempo

 

Eu estou falando isso por causa do artigo Meu filho, você não merece nada, publicado pela Eliane Brum na Revista Época, que fala sobre o despreparo da geração atual para lidar com as frustrações e a "ilusão de que a vida é fácil". Segundo a autora, os jovens que começam a entrar na vida adulta estão mal acostumados com sua infância e adolecência, pois ganhavam tudo nas mãos, "sem ter de lutar por quase nada relevante". 

Essa frustração é bem descrita por Tyler Durden no filme Clube da Luta:

We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives. We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won't. And we're slowly learning that fact. And we're very, very pissed off.

 

Tyler_durden

Listen up, maggots. You are not special. You are not a beautiful or unique snowflake. You're the same decaying organic matter as everything else. 

A questão é que realmente não temos grandes inimigos para lutar, ou uma figura central contra a qual se revoltar. Nossos opressores estão dispersos, daí as milhares de "marchas" que vão surgindo por aí, como a Marcha das Vadias, Marcha da Liberdade, da Maconha etc. É da nossa natureza enquanto jovens a revolta e a luta contra os modelos antigos, mas nossa sociedade, apesar de cada vez mais integrada, sofre com o problema de uma cauda longa de problemas, tão segmentados e difíceis de identificar que não parecem problemas "legítimos", como os que tínhamos antigamente.

Ah, e newsflash: Sabe a pirâmide do Maslow? Pois é, conforme formos combatendo os problemas principais da humanidade, como fome e segurança, irão restar os problemas mais superfíciais e dignos de mimimis, do tipo ninguém me ama, ninguém me quer. 

 

Hierarquia_das_necessidades_de_maslow

 

Mas, e aí? Vamos reclamar que nosso tempo tínhamos problemas de verdade e que a vida era sofrida?

Bom, uma pesquisa entitulada Lottery Winners and Accident Victims: Is Happiness Relative?, realizada em 1978, analisou os níveis de felicidade de dois grupos diferentes, pessoas que ganharam na loteria no ano anterior e pessoas que ficaram paraplégicas ou tetraplégicas por causa de acidentes. Como esperado, os vencedores na loteria apresentaram resultados maiores na escala de felicidade que os paralíticos, porém, surpreendentemente, não apresentaram um nível maior que a média das pessoas que não tinham participado de nenhum dos dois eventos. Paralelamente, os níveis de felicidade das vítimas de acidente eram um pouco menores que os da média das outras pessoas, porém, mesmo assim, estas se consideraram felizes. Passado algum tempo da ocorrência dos eventos em questão, um novo teste foi aplicado, e o nível de felicidade entre os grupos estudados se aproximou. Ou seja, uma vez que um novo referencial foi estabelecido (a riqueza ou a paralisia), ocorreu um processo de adaptação às circunstâncias, gerando um novo conceito de felicidade.

Acredito que a percepção de sofrimento funcione da mesma maneira. O nível de sofrimento e a sensação de dificuldade na vida também são relativos, depende do referêncial. Quem pode dizer que os problemas de uma geração são mais legítimos que os de outra?

 

Make_everything_ok

http://make-everything-ok.com/

Além do mais, me parece no mínimo contraditório que as pessoas batalhem tanto para dar uma vida melhor a seus filhos e depois reclamem que eles não tem dificuldades suficientes. A ideia não é lutar para que seus filhos não tenham os mesmos problemas que você teve? Se a gente não passasse adiante o que já conquistamos, a humanidade não conseguiria seguir em frente, cada geração teria que inventar a roda de novo. E aí cito minha amiga Fernanda: "ia ser que nem o joão de barro, que constrói casa, mas não desenvolve arquitetura nem engenharia".

Concluindo, eu sei que alguns pais fazem muito as vontades de seus filhos, e que o "Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua” tem um grande valor, mas pera aí, esse papo de que a geração atual é mimada e descomprometida já deu, né?