Mídias tradicionais e a função social da fofoca
(Mais um post originalmente do Trend Zombies, mas como tem a ver com os temas do blog, lá vai)
Vivemos na Era da Superinformação. Além de sermos impactados diariamente por todos os lados, também possuímos disponível, a alguns cliques, todo o conhecimento acumulado pela humanidade. Isso pode ser enlouquecedor, mas na minha opinião, é a beleza real da época em que vivemos. Meu irmão, de 15 anos, gosta daquele programa do History Channel, O Universo, e se interessou tanto que passou a procurar artigos na Wikipedia e vídeos no Youtube sobre astronomia. Sendo um nativo digital, não teve nenhum problema em encontrar essas informações. Há algum tempo atrás, para algum jovem pesquisar sobre um assunto desse tipo era necessário ir a uma biblioteca empoeirada e buscar em livros que, com certeza, não teriam o mesmo apelo de um vídeo super bem produzido, postado no youtube.
Aonde eu quero chegar: hoje em dia, as novas mídias nos permitem encontrar informações completas e estimulantes sobre o que quer que nos interesse, e, como os seres humanos têm interesses muito variados, o fluxo de navegação na Internet se divide por bilhões de sites, vídeos, blogs etc., seguindo o esquema da Cauda Longa. Dessa forma, a Internet tem mudado a maneira de se ver televisão, aumentando ainda mais a dispersão desse meio. Para que irei aceitar a programação de uma TV aberta, por exemplo, se posso buscar exatamente o entretenimento que desejo na Internet?
Mas, um fenômeno interessante ainda ocorre. Apesar dos números de audiência dos programas de TV estarem caindo, percebe-se que o seu conteúdo (notícias de telejornais, novelas, jogos de futebol etc.) ainda pauta grande parte das conversações nas mídias sociais. Ontem à noite, por exemplo, boa parte da minha timeline no Twitter falava ou do Debate da Globo ou da Fazenda da Record, apesar de eu seguir pessoas com interesses diversos. Como explicar isso, já que agora as pessoas têm a possibilidade de buscar informações e se conectar com outros que compartilham interesses similares e não são obrigados a absorver o conteúdo que vem das grandes mídias?
Robin Dunbar, que estudou o tamanho dos grupos sociais de primatas não-humanos, comparando-os com os grupos sociais humanos, chegou a conclusão de que o tamanho dos grupos estava diretamente ligado ao tamanho do neocórtex destas espécies, como postei anteriormente. O pesquisador chegou também a conclusão de que a fofoca é uma prática essencial para manter a unidade e o entrosamento social entre os grupos, além de desenvolver o cérebro humano. Hein?!
Como Ronald de Sousa mostra nesse vídeo, os grupos sociais de primatas não-humanos, tinham no Grooming, ato de afagar os pêlos e catar piolhos e sujeiras, uma importante função social. Servia para conhecer os outros membros do grupo e fortalecer vínculos afetivos, função que aos poucos, com o crescimento dos grupos, veio sendo substituída pela fofoca, cola através da qual é possível manter a coletividade unida e conscientes de seus integrantes.
Bom, se a fofoca realmente tem o poder de manter um grupo entrosado, pode-se entender porque o conteúdo apresentado pelas grandes mídias continua ocupando lugar de destaque entre as conversas cotidianas. Se antigamente os grupos eram pequenos o suficiente para que fosse possível conversar sobre seus integrantes, de forma a ambas as partes os reconhecerem, hoje, com a globalização, formamos enormes grupos que, para possuir um assunto em comum, devem recorrer às pautas das grandes mídias.
E olha que todos reclamam dos conteúdos desses meios. Mas aí, sigo a opinião do Cris Dias, quando cita Cory Doctorow:
Content isn’t king. If I sent you to a desert island and gave you the choice of taking your friends or your movies, you’d choose your friends — if you chose the movies, we’d call you a sociopath. Conversation is king. Content is just something to talk about.
Diante disso, será que a TV e as mídias tradicionais vão mesmo morrer? Eu não acredito, não enquanto possuírem essa importante função social.
