Meu filho, você não merece nada - A velha história do: No meu tempo, ...
Tendo a ignorar toda argumentação que vem depois da expressão: "No meu tempo, ..."
Eu queria que a Superinteressante fizesse alguma matéria explicando porque as pessoas têm a necessidade de dizer que antigamente as coisas eram melhores e de desdenhar a geração atual, dizendo que não é educada como antigamente, que não luta pelas coisas, que quer tudo na mão e aquele velho blá-blá-blá que eu futuramente vou ter que dizer pro meu filho também.
Me pergunto se no meu aniversário de 40 anos eu vou receber uma carta do governo dizendo que a partir de agora eu vou ter que começar a proferir esse discurso.
Eu estou falando isso por causa do artigo Meu filho, você não merece nada, publicado pela Eliane Brum na Revista Época, que fala sobre o despreparo da geração atual para lidar com as frustrações e a "ilusão de que a vida é fácil". Segundo a autora, os jovens que começam a entrar na vida adulta estão mal acostumados com sua infância e adolecência, pois ganhavam tudo nas mãos, "sem ter de lutar por quase nada relevante".
Essa frustração é bem descrita por Tyler Durden no filme Clube da Luta:
We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives. We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won't. And we're slowly learning that fact. And we're very, very pissed off.
Listen up, maggots. You are not special. You are not a beautiful or unique snowflake. You're the same decaying organic matter as everything else.
A questão é que realmente não temos grandes inimigos para lutar, ou uma figura central contra a qual se revoltar. Nossos opressores estão dispersos, daí as milhares de "marchas" que vão surgindo por aí, como a Marcha das Vadias, Marcha da Liberdade, da Maconha etc. É da nossa natureza enquanto jovens a revolta e a luta contra os modelos antigos, mas nossa sociedade, apesar de cada vez mais integrada, sofre com o problema de uma cauda longa de problemas, tão segmentados e difíceis de identificar que não parecem problemas "legítimos", como os que tínhamos antigamente.
Ah, e newsflash: Sabe a pirâmide do Maslow? Pois é, conforme formos combatendo os problemas principais da humanidade, como fome e segurança, irão restar os problemas mais superfíciais e dignos de mimimis, do tipo ninguém me ama, ninguém me quer.
Mas, e aí? Vamos reclamar que nosso tempo tínhamos problemas de verdade e que a vida era sofrida?
Bom, uma pesquisa entitulada Lottery Winners and Accident Victims: Is Happiness Relative?, realizada em 1978, analisou os níveis de felicidade de dois grupos diferentes, pessoas que ganharam na loteria no ano anterior e pessoas que ficaram paraplégicas ou tetraplégicas por causa de acidentes. Como esperado, os vencedores na loteria apresentaram resultados maiores na escala de felicidade que os paralíticos, porém, surpreendentemente, não apresentaram um nível maior que a média das pessoas que não tinham participado de nenhum dos dois eventos. Paralelamente, os níveis de felicidade das vítimas de acidente eram um pouco menores que os da média das outras pessoas, porém, mesmo assim, estas se consideraram felizes. Passado algum tempo da ocorrência dos eventos em questão, um novo teste foi aplicado, e o nível de felicidade entre os grupos estudados se aproximou. Ou seja, uma vez que um novo referencial foi estabelecido (a riqueza ou a paralisia), ocorreu um processo de adaptação às circunstâncias, gerando um novo conceito de felicidade.
Acredito que a percepção de sofrimento funcione da mesma maneira. O nível de sofrimento e a sensação de dificuldade na vida também são relativos, depende do referêncial. Quem pode dizer que os problemas de uma geração são mais legítimos que os de outra?
http://make-everything-ok.com/
Além do mais, me parece no mínimo contraditório que as pessoas batalhem tanto para dar uma vida melhor a seus filhos e depois reclamem que eles não tem dificuldades suficientes. A ideia não é lutar para que seus filhos não tenham os mesmos problemas que você teve? Se a gente não passasse adiante o que já conquistamos, a humanidade não conseguiria seguir em frente, cada geração teria que inventar a roda de novo. E aí cito minha amiga Fernanda: "ia ser que nem o joão de barro, que constrói casa, mas não desenvolve arquitetura nem engenharia".
Concluindo, eu sei que alguns pais fazem muito as vontades de seus filhos, e que o "Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua” tem um grande valor, mas pera aí, esse papo de que a geração atual é mimada e descomprometida já deu, né?



Comments 10 Comments
Para um leitor mais atento, Marcos, podemos retirar de ambos os artigos (o da Eliane e o seu) partes que se complementam. No caso daquele: estamos educando nossa geração vindoura de uma maneira não muito adequada para realidade. No seu caso: os problemas mudam de geração para geração, os nossos não são mais os deles, e cada uma tem seus valores, não devemos basear nossa educação em contextos do passado, mas esta deve evoluir como o resto do mundo.
Okay, daí você afirma que seu post está relacionado ao artigo da época, faz uma boa correlação com Clube da Luta etc Daí para baixo, parece que o seu texto é fruto de um exercício de marketing digital e SEO, onde temos que organizar uma lógica semântica para diversas palavras chave, e nessa construção você não foi feliz. Só para dar um exemplo, dizer que Marcha da Vadias é uma luta sem inimigos, não consigo nem pensar o que é pior, você ignorar os dados atuais de violência contra a mulher, ou o movimento feminista no século passado. E você segue com correlações pouco embasadas, que dá uma empobrecida no seu texto.
No final você retoma o lead, e aí concordo com você, não sou descomprometido e muito menos mimado. Afinal, sou dessa geração e sabemos que a vida “num ta facio”, nem pra gente. Mas uma coisa que gerações passadas talvez sejam bem mais eficientes que a gente, é na capacidade argumentação., talvez porque eles tiveram paciência de escutar muitas vezes... “no meu tempo”.... Daí um texto lógico como o seu, acaba tendo menos relevância que um bando de baboseiras que a Eliane Brum falou, mas que estava com toda pompa texto cientifico fundamentado. Mas em uma coisa você está mestre, na arte da polêmica. Pois não é qualquer um que me faria comentar com mais de mil caracteres um post. Diogo Mainardi faz isso e acabou comprando apartamento na Vieira Souto. Ta no caminho garoto, Parabéns!
Se te fez comentar e refletir eu fico feliz, o que tava me incomodando era ver um lado só, daí tive vontade de expor argumentos do outro lado!
Eu curti o texto dela, super bem escrito e cheio de verdades, mas achei muito o velho papo de que a geração de hoje quer tudo na mão e se frustra muito fácil. E toda geração que fica mais velha fala isso da próxima, não tem jeito. Achei que faltou uma visão crítica dela para parar e pensar que poderia estar repetindo um discurso já meio batido.
Eu achei legal relacionar o texto dela com esses temas que eu tentei expor, porque para mim as pessoas mais velhas e experientes algumas vezes ficam muito presas ao passado, evitando aceitar as possibilidades de um novo mundo, por medo.
O mais importante pra mim, nessa história toda, é que a gente pode ficar revoltado com as novas gerações, pode achar elas fúteis, despreparadas, ignorantes, mal educadas, o que for. Mas a grande verdade é que não tem jeito, são as novas gerações que tocam o mundo. Então não é melhor depois de reconhecer as fraquezas e aceitar que a geração que tá construindo o mundo é ESSA, tentar discutir como minimizar o lado negativo dela?
Falar que as novas gerações são isso ou aquilo é falar mal de sua própria geração que criou e educou a atual. Enfim, as gerações mais novas precisam de algo mais construtivo vindo da voz da experiência da galera mais antiga. Acredito que podem contribuir muito mais do que só criticando e analisando os jovens de hoje.
Grato pelo comentário em meu blog, mas você sem se dar conta (ou de forma intencional) acabou de ratificar tudo o que a Eliane afirmou em seu artigo.
Bração e boa $orte,
Quemel
Os filhos, todavia, merecem:
Respeito
Disciplina
Pais decentes e que saibam
Viver e conviver,
haja vista que nisto, no conviver ocorre a maior falha:
A mania de as pessoas, inclusive marido e mulher, pretenderem impor seus pontos de vista uns aos outros. Isto é uma fonte constante de desavenças, a gerar um clima de inferno.
Aqui está a causa de maior tormento para os filhos que desejariam ver seus pais em harmonia.
Isto não é de hoje não; é de séculos...
Grande mérito de Eliane Brum em trazer ingredientes de reflexão, tais como:
"para conquistar um lugar no mundo é preciso ralar muito."
"Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos..."
Aqui está o nó; não se trata de buscar felicidade, mas de julgar que o ter é que faz as pessoas felizes, status...
"Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?"
"... existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer."
"... viver é também ter de aceitar limitações - e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer."
"... ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos"
"... passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais"
"assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem."
Um certo dia o pai dizer: "Olha, meu dia foi difícil" e o mais que se segue...