A privacidade é supervalorizada.
Um dos temas mais abordados hoje, ao se falar de internet e redes sociais, é a questão da privacidade. Existe o senso comum de que sofremos com esse problema ao participar de redes sociais e de como isso é prejudicial à nossa liberdade. O problema é que o "senso comum" sempre me assusta.
Não vou jogar dados e estatísticas, todo mundo já está saturado dessas informações, o que eu quero é propor um exercício de reflexão.
Por que as pessoas estão tão preocupadas com privacidade? Sim, eu sei, queremos nossa liberdade, queremos poder fazer o que der vontade sem que todos fiquem sabendo. Mas já paramos para pensar que o que queremos "esconder", geralmente, são coisas que sob alguma ótica consideramos "erradas"? Não queremos que nossos colegas de trabalho saibam as besteiras e idiotices que fazemos em nosso tempo livre, por exemplo. Todos temos algum prazer secreto ou alguma idiotice que só compartilhamos com nossos amigos, porque queremos manter nossa imagem "séria".
Imaginemos agora um mundo em que previsões apocalípticas de um futuro sem privacidade se concretizem. Seria tão ruim assim? Talvez as pessoas se preocupassem em fazer menos coisas "erradas", ou mesmo passassem a aceitar mais quem elas realmente são. Aprenderíamos a aceitar os defeitos dos outros, pois saberíamos que os nossos também estariam expostos. Seríamos menos hipócritas?
Seria o caso de panóptico, estudado por Foucault, uma espécie de controle social baseado na vigilância. Só que nesse caso, sem a relação hierárquica (pelo menos não da maneira tradicional), já que estaríamos todos no mesmo barco.

Comments 5 Comments
E privacidade é uma questão que afeta o âmago das pessoas. Desde que não seja algo ilícito, que afete negativamente outras pessoas, não vejo nada de mais nessa questão. Pelo contrário, defendo privacidade, sempre. Sites, redes sociais, programas lucram em cima das informações dos usuários. Deixá-los no controle do que produzem é o mínimo de respeito que se espera de algo assim.
[]'s!
O que eu acho é que nenhum indivíduo é um só. São diversas camadas, gostos, estilos e o que costura isso tudo é o que eu chamaria de individualidade. Exemplo: é claro que eu não falo do mesmo jeito com meus amigos, minha namorada e o dono da empresa onde eu trabalho.
E a indefinição de onde começa e onde termina cada uma dessas camadas pode ser problemática, por conta de preconceitos do tipo "não vou contratar este funcionário porque vi no orkut que ele gosta de black metal e tem tatuagens. deve ser drogado." Todos temos hábitos e costumes que preferimos não mostrar pra todo mundo, e isso não significa que pensemos que eles sejam errados, mas só inadequados para algumas dessas esferas. Isso pra não falar da questão de segurança, que o comentario aí de cima já abordou bem.
Por outro lado, sobre os sites de relacionamento, redes sociais e o tão temido google terem meus dados, acho indiferente. Digo mais, acho até bom. Assim eles podem entregar um serviço cada vez melhor pra mim e, como eu nao tenho nada criminoso pra esconder, tanto melhor pra minha experiencia como usuário. Só acho que esse limite é ultrapassado se uma empresa detentora de dados como esses vende minha ficha pra terceiros. Aí voltamos para a questão da segurança, dos preconceitos e do que eu quero que os outros saibam sobre mim na internet.
Certamente, hoje em dia temos que ser cautelosos e proteger muitas de nossas informações, já que, de fato, existem esse tipos perigosos, além de toda essa questão do preconceito.
No entanto, a minha proposta era imaginar um mundo com ausência total de privacidade, onde não seria possível alguns levarem vantagem sobre outros, já que todos estariam expostos e sendo vigiados uns pelos outros. Entendo que é utópico, já que sempre irão existir pessoas que burlarão o sistema para proveito próprio.
De qualquer forma, acho interessante discutir sobre o tema, já que a pessoas focam somente em defender a privacidade, e, na maioria das vezes, essa necessidade só existe em função de outras questões, como a sensação de falta de segurança e o medo de sofrer preconceitos.
Se, de alguma forma, essas questões desaparecem, será que prezaríamos tanto pela nossa privacidade?
A Marisa Lemos escreveu um texto muito interessante que aborda também esse tema, recomendo: http://marisalemos.posterous.com/liberdade-liberdade-abra-as-asas-sobre-nos
- Pessoal reclama da privacidade e continua rifando ela na internet (nos celulares tb né scarlett?), me parece quase... a mesma coisa que transar sem camisinha, enfim..
- Acho que poderia ser complicado "dividir" tudo com todo mundo o tempo todo, isso implicaria em juntar algo que nós mesmos separamos... Acho que é mais que uma divisão de sério no trabalho e "zuador" com os amigos, mesmo entre os amigos tem hierarquias e mesmo pra você mesmo tem coisas que você faz e gosta de fazer e tem coisas que não curte tanto mas faz, não ter fronteiras na circulação dessas informações implicaria numa dissonância (http://pt.wikipedia.org/wiki/Disson%C3%A2ncia_cognitiva) das boas no sujeito.
- Penso também que as informações derivadas das ações de cada pessoa tem "pesos" diferentes, basta pensar num X-9 no morro, num estuprador na cadeira, num pedófilo na sociedade (como um todo) e num politico honesto (saaaaen). Tem telhados que são de vidros ainda mais finos.Creio então que, mesmo no cenário proposto, haveria hierarquia,pois ao obter as informações as pessoas fazem usos destas, a maneira que as usam lhes da poder e com poder "criam" hierarquia.
- Não sei se seríamos menos hipócritas, no mínimo mais contidos. Além de ser, em potencial, uma bela lição de vida pra todos, a questão é quanto tempo e quanto sofrimento seria necessários pra aprender. Pessoalmente cara, creio que não devemos tacar pedra no telhado do outro não só pq o nosso é de vidro, principalmente em respeito por não ser a porra do nosso telhado e ainda assim, é claro que vira e mexe, infelizmente (e muito honestamente) me pego com uma pedra na mão. Já me dou razoavelmente satisfeito por não tacar, feliz por pouco pegar e almejando conseguir nem pensar em pegar.
- Finalmente um trechinho de Dostoiévski que acho muito interessante:
"Todo homem tem algumas lembranças que ele não conta a todo mundo, mas apenas a seus amigos. Ele tem outras lembranças que ele não revelaria nem mesmo para seus amigos, mas apenas para ele mesmo, e faz isso em segredo. Mas ainda há outras lembrancas em que o homem tem medo de contar até a ele mesmo, e todo homem decente tem um consideravel numero dessas coisas guardadas bem no fundo. Alguém até poderia dizer que, quanto mais decente é o homem, maior o número dessas coisas em sua mente."
Abraços!